domingo, 24 de agosto de 2014

Mais carpe diem, por favor

Eu gosto mesmo é de ser livre
Gosto mesmo é da liberdade
De ser pássaro solto no mundo
De ser vento sem obrigações

Gosto mesmo é da conquista
De desbravar o novo, o horizonte
Ser sensível, embora firme
Caminhar sem temer o suspense

Ser dono do próprio nariz
Ser rebelde sem ser ingrato
Honrar as cores do país
Lutar por uma ideologia

Gosto mesmo é de ser livre
De ser um eterno sonhador
Gosto mesmo é da vida
Mais carpe diem, por favor!

Eu e o tempo

Suave tiquetacar das horas
A girar os ponteiros inquietos
Que são como velhas senhoras
Sábias e doces com seus netos

Mas as horas sabem impor
Um compasso diferente do normal
Como a maratona de um corredor
O relógio apressa o temporal

A noite chega sorrateira
O dia passa tão depressa
A saudade é dor verdadeira
A perfeição é inimiga da pressa

Tempo, dito senhor do destino
Tempo, amigo íntimo e vilão
Tempo, deixai-me ser sempre menino
E percorrer o trem da vida em cada estação

quinta-feira, 24 de julho de 2014

A Ariano Suassuna


A Ariano Suassuna

Quando vejo Suassuna
Revigoro meu amor pela arte
Vejo que o homem parte
Mas a obra continua

Quando vejo Suassuna
Me dá alegria em escrever
Acredito que posso viver
Uma vida de poesia

Quando vejo Suassuna
Não temo a Caetana
Tenho alma humana
Tenho alma de menino

Quando vejo Suassuna
Acredito no riso
Dou um singelo sorriso
E choro de alegria

Quando vejo Suassuna
Celebro a paz no mundo
Sinto o mais profundo
Vibrar da emoção

Quando vejo Suassuna
Escrevo com felicidade
E faço com a morte, um acordo
Sabendo que o homem é livre

Quando vejo Suassuna
A dor é esquecida
E num auto de uma Compadecida
O céu traz um auxílio

Quando vejo Suassuna
Tenho a absoluta certeza
Que o homem parte 
Mas deixa a sua arte.

De um admirador emocionado,
Suassuna, muito obrigado!

Agradeça o dom

Veja o dia que nasce lá fora
A esperança que se redescobre
A cegueira boa que dá na hora
Que o sol surge do mar e sobe

As gaivotas que mergulham no mar
Em busca do peixe de cada dia
O descanso merecido do luar
Que dá vez a uma manhã luzidia

O fruto que revive da semente
A brisa que vem e vai embora
Seguindo a direção do poente
Sem ter pressa, sem ter hora

Respira o ar livre e perfumado
Que as flores emprestaram o olor
Agradeça o dom de estar acordado
Para viver uma vida com mais amor!

Deixa a chuva cair


E lá estava ela... No lugar onde menos poderia imaginar e de onde, hoje, não consigo me lembrar... Uma coisa é certa: era a entrada de algum lugar. Poderiam ser os portões cinzentos e sujos de uma faculdade, mas o lugar tinha mais cor. Poderia ser a entrada de um cinema, mas como o encontro foi por acaso, não poderíamos nos encontrar, os dois, sozinhos ali. Poderia ser a entrada de um estádio de futebol, muito provavelmente o Maracanã, num dia chuvoso. Sim. Maracanã. A imagem da memória acaba se autoconstruir (ou seria reconstruir?) na minha mente inquieta que teima em registrar poeticamente aquele momento.
Olhares surpresos... Um não sabia o que o outro estava fazendo ali, havia um certo espanto no ar. Um ar de mistério, como o olhar de esfinge que me desafia cotidianamente. Duas peles brancas, quase pálidas diante do sol que se escondia por trás das nuvens cinzentas de uma chuva que só chovia ao redor, mas não chovia em nós. Talvez estivéssemos sob a proteção de uma marquise, ou nem mesmo estivesse chovendo.
O ar de mistério continuava a se propagar, cada vez mais próximo daqueles olhos de jabuticaba verde (se é que existe jabuticaba verde) que vinham ao meu encontro. Poucas palavras foram ditas e essas poucas só queriam expressar o espanto naquele (re)encontro ali, naquele lugar tão insuspeitado. Não fazia muito tempo que os dois viriam se encontrar perto dali, numa comunhão do destino, num acaso planejado, numa coincidência prevista.
Mas o que viria em seguida era tão imprevisto quanto os olhares que se fitavam, inquietos, naquele frisson de mistério. Como era bom desbravar o desconhecido. Do nada, tudo ao redor parecia ter sumido: as pessoas, a chuva, o vento, o frio. Agora eram apenas os dois, nós dois. Quem somos nós? Quem éramos nós? O que somos nós? Por que estamos aqui? Estamos aqui?
Diante de tantas dúvidas, não parecia haver outra saída, senão concretizar aquilo que era inevitável. Do amor ao ódio, do ódio ao amor. Do amor ao amor. De um primeiro encontro a um derradeiro que poderia querer apagar o passado e despertar algo novo.
Foi então que, naquele ar de conquista, de mistério, insensatez, loucura, medo, apreensão e amor, tudo (ou nada) aconteceu: o encontro dos olhos fomentou e incendiou o encontro das bocas, que gentilmente se tocaram com a voracidade insana de dois leões que se atracam por um pedaço de carne. Os cabelos negros e esvoaçantes da mulher, emaranhados no pescoço do homem, envoltos nos perfumes opostos, que se perdiam no olor dos corpos em profusão. Em chamas.
Logo os braços começaram a se mover, como garras que se agarram com força, mas que ao mesmo tempo sabem acariciar com maciez e doçura. Uma doçura apimentada pelo ódio que os separava, mas que agora os unia pelo beijo. Nós, ali. Os braços que antes seguravam a cabeça, escorriam pelas costas frias, como os pingos de chuva que agora caíam sobre os corpos em chamas. Porém água alguma poderia apagar aquele fogo.
Demorados, intensos, inesquecíveis momentos. Uma vida em minutos, uma vida de amor e ódio naquele beijo maniqueísta, doce, naqueles lábios vermelhos como o sangue, num rosto pálido e frio como a neve. Doçura, tentação... Mordidas, carícias, olhares, pegadas, sentimentos puros e absurdos. Quando as bocas se separaram, se desuniram, o magnetismo inverteu seus pólos, o ódio se tornou amor. A raiva se tornou paixão. E aquele sonho acabou. Teria outro começado? Ela nunca existiu.

Amigo, meu amigo

Amigos distantes, sempre amigos
Reencontram-se a cada novo dia
Compartilham dos mesmos abrigos
Sorriem de sincera e pura alegria

Pássaro da amizade, fênix no céu
Cometa que mergulha e sobrevoa
Casamento que dispensa o anel
Pessoa que entende outra pessoa

Nem mesmo o tempo e a distância
Conseguem separar tanta união
De ontem, do berço, da infância
Amigo, verso, poesia e canção

Na música, na festa, na treva
Na alegria, na dor e na saudade
Amigo é um presente que se leva
Da vida para toda a eternidade!

segunda-feira, 14 de julho de 2014

O jogo começa agora

A bandeira ainda balança na varanda... O verde, o azul e o amarelo, que a maior parte das pessoas acha que simbolizam a mata, a água e as riquezas, mas que na verdade eram as cores presentes nas dinastias do nosso Império. Lá está ela. Ventando junto com o vento, brisa que carrega a refrescância e o suor de um Maracanã, a poucos metros de distância. A lua, de tão redonda, até parece uma bola de futebol. Nada mais propício para uma final de Copa. E a flâmula continua bailando com o vento. Em certos momentos ergue-se e fica suspensa no ar, como se uma nação invisível a sustentasse com a energia de um povo que luta. O movimento da bandeira no ar lembra os cabelos de uma mulher: soltos e levados pelo embalo do vento. O silêncio nas ruas é feroz. Só mesmo o barulho dos carros para romper com a tristeza da ausência de som. Uma chuva fina começa a cair, como se as lágrimas de um povo escorressem lentamente pelo céu febril de uma nação assustada. O futebol perdeu. Mas o povo continua. Dentro de poucas horas as pessoas começarão a retirar seus enfeites das casas, lojas, praças e avenidas... A seleção perdeu, por que continuar com bandeiras? A resposta é simples: porque a verdadeira Copa ainda vai começar. Todo ano de Copa é ano de eleição. Terminado o futebol, é a vez do espetáculo da democracia. Um voto vale mais do que um gol. O fair play é essencial para evitar faltas e corrupção. Tão distantes, mas tão próximos, a Copa e as eleições se encontram. A bandeira, símbolo do nacionalismo e do apreço pela seleção, deveria permanecer ao sabor do vento, erguida nas janelas de um berço esplêndido, ao som do mar e à luz de uma nação que brilha. Brilha por seus craques, dentro e fora de campo. Diferentemente da Copa, somos todos técnicos, com igual poder de escalação. Escolhemos nosso time, nossos craques, com responsabilidade, consciência e com a emoção de quem quer ver uma bandeira sendo erguida com orgulho a qualquer momento do ano. A minha bandeira não vai sair da janela. Essa é minha forma de protesto e o meu grito para romper com o silêncio do medo. A verdadeira Copa está começando. Vista o seu uniforme, envolva-se na sua bandeira e vote com consciência. Apito inicial. Que comece o jogo. 

terça-feira, 10 de junho de 2014

Aprendi com Leminski


Aprendi com Leminksi
Que menos é mais:
Menos palavras,
Mais interpretação.
Meu ponto final,
A sua imaginação.

*
Versos, ao contrário
Do que dizem,
Ao avesso dos que falam,
Só querem dizer
Que dizem e não falam.

*
Num espaço
reduzido,
Numa panela
de pressão,
As palavras
e os homens
Descobrem a
inspiração.

*
Eu gênio,
Eu, gênio,
Eugênio
Eu, gênio.
Eugenia,
Quem diria:
Eu, louco!

A poesia pulsa!

Diz o verso
Coisas que não se podem escutar
Diz a poesia
Verdades que o coração silencia

Revela o poeta
Detalhes que passam despercebidos
Acaricia a rima
Os ouvidos dormentes de tédio

Saboreia o leitor
Palavras vindas do mundo da inspiração
Absorve o mundo
Tudo aquilo que ele mundo não entende

Sepulta o papel
Aquilo que deve ser dito e queria fugir
Finaliza o verso
A grande certeza: a poesia pulsa!

Diante de tanta loucura teórica, a incerteza é a única certeza

Teorias, teoremas
Teses, tratados
Soluções, problemas
Pacíficos, armados

Princípios, fundamentos
Mediato, imediato
Opiniões, argumentos
Doutrina, fato

Objetiva, subjetiva
Direto, indireto
Progressiva, regressiva
Abstrato, concreto

Chaves dialéticas
Concretude, vagueza
Ideias ecléticas.
Certeza: incerteza!

Sub-humanos

Esquecidos, jogados, abandonados
Largados, desamparados, f*didos
Impedidos, proibidos, maltratados
Humilhados, desesperados, vencidos

Condição inferior ao mais inferior
Dos seres humanos em vilania
Expostos ao frio intenso e ao calor
E ao relento da desumana covardia

Um problema, um problema social
Uma mazela, uma questão urbana
Uma poluição, uma chaga, um mal
Uma vida? Se vida, sub-humana!

Dormindo, subsistindo, na torpeza
No ambiente fétido, putrefato e pueril
Das calçadas da dor e da pobreza:
Meindignos, esquecidos, desse Brasil.

Recomeço

Renascer feito fênix, sem mitologia
Recomeçar dos cacos, dos pedaços
Reinventar-se, de novo, a cada dia
Renovar e refazer os velhos laços

Permitir que o novo se empodere
Do passado que já foi, que passou
Ouvir os conselhos que sugere
A nova aurora, que já raiou

Redescobrir o prazer cotidiano
Conhecer os novos prazeres
Viver a essência de ser: humano!
Dizer poesia, não apenas dizeres

Recuperar as forças abaladas
Ressurgir das cinzas do passado,
Renovando as esperanças, aladas,
De um futuro ainda a ser conquistado!

Dormindo eternamente em berço esplêndido até que o barulho nos acorda do sono profundo

O país se veste de verde e amarelo
O hino entoa nas bocas mais variadas:
Do sorriso completo ao banguelo
Todos celebram das arquibancadas

O patriotismo está em alta nesses dias
O orgulho é genuinamente canarinho
É hora de comemorar as alegrias
De um país com esperança no caminho

Tudo é festa: bandeiras, adornos...
Sorrisos multifacetados de um povo campeão
O Cruzeiro do Sul preenche os contornos
De um país que hoje se vê como nação

Viva a Copa do Mundo! Viva a diversidade!
Tem gente do mundo todo na cidade!
- Moço, estou com fome, tem um trocado?
O povo não foi convidado (para a festa aqui ao lado).

Aurora, qualquer aurora, minha aurora

O horizonte se colore de aurora
De aurora, não da aurora, diria.
A aurora, essa que vem agora
Essa que avermelha o meu dia

Meus olhos vêem tudo e nada
Observam, fitam, desorientados
Em busca de uma vista adorada
Ou de sonhos ainda não sonhados

Dali vejo o futuro e o presente
Em comunhão com o pretérito
Formando um sonho ausente
Ou um vasto e detalhado inquérito

As cores da aurora, sem ser a boreal
Acariciam minhas retinas daqui
Num espetáculo humano e astral
Que projetei no horizonte logo ali.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Confraria da Poesia Informal na Câmara Municipal de Petrópolis



Como um dos membros fundadores da Confraria da Poesia Informal, fico extremamente orgulhoso e lisonjeado por termos dado este passo tão importante para a nossa jornada poética. Do sonho da poetisa Catarina Maul, do grupo do Facebook, dos saraus mensais, da Antologia Poética lançada na Bienal Internacional do Livro, dos poetas ao redor do mundo, do blog... 


Fomos convidados para inaugurar o I Sarau do Palácio Amarelo na Câmara Municipal de Petrópolis, dentro do projeto Arte na Câmara, que já vem acontecendo desde o ano passado. Levamos poesia, teatro, música, varais poéticos e toda a nossa informalidade.

Os vereadores despiram suas gravatas ao fim de um debate no plenário e inverteram de posição conosco: o plenário era nosso, como deveria ser sempre, e eles nos escutaram.

Sinto muita satisfação por ter podido abrir esse evento e, mais ainda, por ser membro dessa Confraria, desse sonho, dessa realidade. Essa conquista é de todos nós. Registre-se aqui o nosso agradecimento à Câmara Municipal de Petrópolis, na pessoa de seu presidente Paulo Igor e sua organizadora de eventos, Andréa Lopes. A Casa do Povo foi aberta para o povo!

Muito mais que uma moção, demos o passo inicial para uma caminhada frutífera entre a Política e a Cultura, entre os Vereadores e o Povo.

E que possamos, através da arte, cobrar também por melhorias e pelo pleno exercício dos nossos direitos.

É muito melhor quando caminhamos de mãos dadas, com transparência, honestidade e compromisso com a verdade.

Parabéns à Câmara pela iniciativa e pela Confraria, por sempre inovar, buscar o novo e transformar o mundo que nos cerca com o poder da arte.

Abertura do I Sarau do Palácio Amarelo



Poema apresentado na abertura do I Sarau do Palácio Amarelo, no dia 20 de fevereiro de 2014 na Câmara Municipal de Petrópolis. 

Hoje é dia de poesia na Câmara

Vejo um palácio, suntuoso e amarelo 
Que em seu jardim tem uma águia como adorno 
Paredes clássicas como as de um castelo 
Coloridas por poetas em seu entorno

À frente vê-se outro palácio majestoso 
Que reconta a história de um Império 
Ambos cercados de um luxo garboso 
E de uma política coberta de mistério

República e Império, dualismo antitético...
Palco e microfone da política cotidiana 
Servindo a um propósito menos cético: 
Dar voz à cultura e à arte petropolitana!

A águia se faz fênix e renasce a cada dia 
Quando as portas se abrem para o novo.
Hoje é dia de comemorar a cultura e a poesia;
Hoje é dia de abrir a Câmara para o povo!

Os quatro elementos estão incompletos


Os quatro elementos estão incompletos

Água, espelho natural que me reflete
Terra, maciez onde repouso meu fardo
Ar, vento, carinho que à noite me acomete
Fogo, chama que criei e onde ardo

Correnteza que leva as lágrimas e as dores
Solo que sustenta caules, pétalas e raízes
Brisa que acaricia as mais variadas flores
Fagulha que incendeia sonhos (in)felizes

Quatro elementos regem o universo
Como vórtices incompletos que se procuram
Feito a rima torta em busca do verso
Feito amantes que se amam e se juram

E se houvesse ainda mais um elemento
O amor seria a minha maior aposta
Pois de nada adianta o fogo ou o vento
Se não se pode ter aquela de quem se gosta.

Uma noite em Copacabana


Uma noite em Copacabana

Cheiro de mar beijando a areia
Sabor de sal, agridoce e primaveril
Pássaros que encontram sua ceia
Numa água refrescante para um dia febril

Pessoas que passam, só passam
Sentam-se, conversam, se sentem
Saboreiam-se, se beijam, se enlaçam
Olhares que se entendem, se consentem

Noite de verão, brisa de primavera
Refrescante, carregada de sabor
Dois amantes sentados à espera
Do por do sol de um novo amor

Pés que se perdem na areia fria
Descalços, despidos do vão capital
Tateiam e absorvem toda a energia
De uma natureza simples e animal

A brisa traz sabor de maresia
O vento salgado se liquefaz no suor de verão
Uma noite de plena paz e poesia
Numa sinestesia doce ao coração.

Lua branca, lua pura: boa noite!


Lua branca, lua pura: boa noite!

Quando as luzes se apagam na varanda
E os prédios ao longe desaparecem no breu
Escuto o cair da noite em ritmo de ciranda
Enquanto caem estrelas no sonho meu

Vejo a lua no céu: branca, porosa feito queijo
Crateras que escondem na minha imaginação
Um antigo, alegre e muito precioso desejo
De ser livre para voar pelo céu da inspiração

A noite cai, as estrelas caem, o silêncio impera
Os olhares se perdem na vastidão do horizonte
É noite de verão, mas sinto a brisa da primavera
E escuto sons de cachoeira, cristalinos como fonte

Sinto o vento roçar meus cabelos, sem rumo
Sinto o calor se aconchegando, com doçura
Sinto a noite coroar meu dia, sem prumo
É chegada a hora de dormir: Lua branca, lua pura!

Cai a neve no verão tropical

Acordei buscando um verso frio
Que pudesse amenizar o calor
Mas acabei despejando no (R)rio
Rimas suadas, sem nenhum frescor

Olhei para o céu e pedi um temporal
Mas os astros entenderam errado:
Desceu sobre mim um vendaval
Que me tirou do eixo, descompassado...

Perdidos num horizonte montanhoso,
Meus olhos enxergavam neve
Onde se via um verde perigoso.

Naquele momento, me senti mais leve
Imaginando um futuro branco, glorioso...
Mas vida é longa e o sonho é breve (feito a minha neve)...

Atropelíngua

Este poema é o resultado concreto
Do atropelamento de uma língua inquieta
Que teimava em sair varrendo o teto
De dentro da louca boca do poeta

O músculo rubro, já causara acidentes
Das mais variadas formas possíveis
Toda vez que se chocava com dentes
De mulheres, em chamas, e insensíveis

Euforia, histeria, sinestesia, quem diria...
Boca de poeta aberta para novas aventuras
Boca de poeta, local de verbo e gritaria...

E em meio a mais um encontro às escuras
O músculo lúdico, sádico e varredor diria:
Atropelada a pelada boca por dentes de loucuras.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Tudo renasce

Há dias em que o sol não nasce
Simplesmente não desce do céu
E mesmo que o sistema abortasse
A lua o encobriria com seu véu

Há dias em que não há estrelas
Não adianta ir ao céu procurá-las
Se, de dentro, não se pode vê-las
Devem estar bailando em outras salas

Há dias em que a vida se desespera
E a morte parece mais perto
E vem o momento da espera...

Mas nada há de ser mais certo
Que a certeza que nos traz a primavera:
Tudo renasce: o sol lá longe, o amor aqui perto.

domingo, 13 de outubro de 2013

Descarreguemos as baterias!

Quando as forças parecerem se esvair
E o cansaço bater à porta, rudemente
Não deixe o fracasso te subtrair
Acene e bata a porta, delicadamente

Quando o sorriso se fizer de difícil
E a saudade sufocar no peito, aprisionada
Dispare do coração poderoso míssil
Com um beijo-torpedo para a pessoa amada

Quando o desânimo tentar se impor
E a desesperança se tornar quase realidade
Faça as suas tarefas com um pouco mais de amor
Que a vida retribui com deliciosa reciprocidade

E quando, por fim, os olhos sucumbirem
Adormeça sem irritação, leve e manso
Não deixe a ansiedade e a vontade te traírem
Afinal, todo mundo merece um pouco de descanso!

sábado, 21 de setembro de 2013

Independência ou Morte


Independência ou Morte

O brado do Ipiranga foi silenciado
Voltamos ao passado colonial
Embora não tenhamos reinado
Nem a soberania de Portugal

Ainda somos dominados e explorados
Pelo canhão opressor da injustiça
Hoje vemos revolta de todos os lados
E a forte repressão da polícia

Apesar da escória do vandalismo
E das chagas da falta de unidade
Temos que enxergar o abismo
Entre as classes de nossa sociedade

Quando Pedro empunhou sua espada
Num ato simbólico de amor à terra
Provou seu apreço pela pátria amada
Mesmo que isso custasse uma guerra

Quantos de nós empunhamos nossas convicções
E lutamos por um Brasil de esperanças?
Quantos de nós combatemos as opressões
E damos um futuro digno às nossas crianças?

Nas urnas podemos mudar o futuro
E acabarmos com tanto recesso
Um povo que vive no escuro
Só pode ter medo do seu Congresso

Através da paz, do protesto bonito
Da luta eleitoral e do grito febril
Podemos por fim a esse conflito
E resgatar a soberania do nosso Brasil

Temos que lutar pela Independência moral
E acreditar que a mudança não depende da sorte
Para aniquilarmos a chaga do mal
É preciso bradar, novamente: Independência ou Morte!


segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Um grito de liberdade


Liberdade
Das algemas e dos grilhões
Liberdade
Das bombas e das mutilações

Liberdade
Das tropas e dos batalhões
Liberdade
Das guerras e dos canhões

Liberdade
Das violências e das opressões
Liberdade
Das injúrias e das dilacerações

Liberdade
Dos medos e das humilhações
Liberdade
Das riquezas e das nações

Liberdade
Dos ricos e dos fodões
Liberdade
Das armas e das poluições

Liberdade
Das trevas e das maldições
Liberdade
Das amarguras e contradições

Liberdade 
Das discórdias e das violações
Liberdade
Das migalhas e das corrupções

Li ber da de
Li ber da de
 Li ber da de 

Será que custa muito, um pouco de liberdade?

terça-feira, 27 de agosto de 2013

O céu sírio


No céu sírio sofrem as estrelas
Incomodadas com mísseis e foguetes
No chão sírio... Como não vê-las...
Crianças ao chão com químicos porretes

Há flores mortas, acidificadas
Não há mais que armas no poente
Há lágrimas que escorrem demoradas
Enquanto corre um teatro no ocidente

O céu sírio mais se parece com seu chão
Bombardeado pelo egoísmo feroz
De homens que se dizem líderes da nação
Mas que um dia terão o nome: algoz!

Caem as estrelas, misturam-se ao chão que cede
A guerra é fruto da falta de diálogo e ganância
E em meio a tudo isso, uma criança pede:
-Quero viver, em paz, a minha infância.

domingo, 18 de agosto de 2013

Mais uma condução

Embarco apressado na condução
O relógio parece me desafiar
O tempo passa feito um furacão
Mas só a inércia me faz movimentar

Estático, observo os passageiros
Cansados pelo tardar do dia
Passado um ponto, descem os primeiros
Entram novos, renovam a energia

Por entre os freios bruscos e inesperados
Queixam-se as velhas de artrite e artrose
Resmungam os novos, inconformados
Com mais um surto da nova virose

A cada curva um velho horizonte
Que se repete no correr da rotina
E no trepidar da mesma ponte
Sinto o temor da pequena menina

Tudo parece seguir a mesma velocidade
Repete-se o trem em cada estação
Quando penso que atingi a liberdade
Apenas salto, distraído, e dou com a cara no chão.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Uma aventura à quatro línguas


Yo te aimerai always

Je dirai que tu ne m'aimes pas
Diré que tu no me amas
Dirai que tu es là-bas
E que te deitas em outras camas

Appellerai pour ton prénom dans la rue
Chamarei por ti nas ruas
Be sure I will be calling you
 Las voces que escucho son tuyas

Je serai un etèrnel romantique
Serei um romântico eterno
You cannot say that I am weak
 Porque por ti voy y vuelvo al infierno

Y si tu piensas que no te quiero
Loving you is my only aim, listen to my claim:
Saibas que para todo sempre te espero
Sache que pour toujours je t'aime!

terça-feira, 23 de julho de 2013

Será que algum dia saímos do mundo do Grande Irmão?




De volta aos tempos do Grande Irmão
O povo se apresenta em tempo real
No palco das ruas, impera a multidão
No privado, a espionagem internacional

O que antes silenciava entre quatro paredes
Hoje é exposto com a maior facilidade
Por aqueles cibernéticos das redes
Que invadem a tal privacidade

Paparazzo, no plural paparazzi
Espiões, serviço secreto
Desde o Acre até Benghazi  
Quem dirá o que é correto?

Grampos não são só para cabelos
Fotografias não são para memória
Não adianta tentar escondê-los:
Todos os fatos viram História

Mundo da informação e da tecnologia
Onde nada escapa de verificação
Benvindo a esse novo mundo de orgia 
Se é que saímos do Grande Irmão...

sábado, 13 de julho de 2013

Ser homem, ser humano


Ser estranho esse tal de humano
É um ser ou não ser em questão
Um aventureiro em auto-engano
Pecando em busca do perdão

Cospe palavras aleatórias
Sem medir as consequências
Vive a construir novas histórias
Ocultando velhas reminiscências

Joga um jogo sem vencedor
Enfrenta o medo sem coragem
Luta em guerra por amor
Sem amar sua própria imagem

Feroz, traiçoeiro, covarde e herói
Forte, valente, guerreiro e vilão
De todas as dores, a que mais dói
É ser homem e saber dessa condição.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Amor de poeta não se mata com tiro! - Diálogo com Drummond



O leiteiro de Drummond perdeu a vida
Sem qualquer chance de rendição
Do tiro, restou a bala, a ferida...
A morte pela sua própria condição

Morremos a cada dia, como o leiteiro
Quando não expressamos o sentimento
Que invade o nosso corpo por inteiro...
Morremos sempre e a todo o momento!

O segredo da vida está em assumir o seu amor
E diante do mundo ser como um gatuno
Que diferente do leite, é vivo, tem cor
E age sem esperar momento oportuno

É preciso dar voz ao grito do seu coração
Dizer à amada: És o ar que eu respiro!
Pois diferentemente do leiteiro ou do ladrão
Amor de poeta não se mata com tiro!

domingo, 23 de junho de 2013

Reportagem no Diário de Petrópolis, 23/06/2013


Reportagem sobre Filipe Medon no Jornal Diário de Petrópolis do dia 23/06/2013.
Petrópolis-RJ.

É com enorme satisfação e orgulho que, pela primeira vez, meu blog é indicado pela mídia. Fruto de muita inspiração e dedicação, este blog é a coleção de tudo aquilo que tenho escrito recentemente, apesar do pouco tempo que tenho para me dedicar a ele.

 Fico muito feliz de saber que a minha arte, mesmo que de grão em grão, tem chegado às pessoas. É muito gratificante o carinho que o público tem tido com as minhas palavras. Espero poder retribuir à altura, continuando a provocar reflexões e a emocionar os leitores!

Que esta seja a primeira de muitas indicações!

segunda-feira, 17 de junho de 2013

O grito da Geração 90



Poema declamado no dia 16/06/2013 por Filipe Medon no Sarau da Confraria da Poesia Informal dentro da programação do Solstício do Som 2013, na Praça da Liberdade - Petrópolis-RJ.

O grito da Geração 90


Os novos revolucionários
A nova juventude
Estão nos mesmos cenários
Caçando virtude

A nova classe média
Empunha seu cartaz
Não é mais comédia
O palhaço ficou para trás

O bagulho é tenso
Diz o jovem de noventa
Momento propenso
Para um herói que se inventa

Ainda falta uma unidade
Um motivo, uma imagem
Com toda sinceridade...
Não é só pela passagem

O jovem está insatisfeito
Com tamanha injustiça
Um Estado de Direito
Não abusa da polícia

Onde estará a democracia
E a garantia da Constituição?
Será apenas ideologia?
Copa, Olimpíadas, Circo e Pão?

O jovem quer falar
Quer exercer a vitalidade
Quer sexo, paz, quer amar
Quer um brado pela insanidade

Mas ainda falta uma liderança
Que congregue a multidão
É como adormecer a criança
No olho do furacão

A juventude soltou o seu grito
Não adianta gás lacrimogêneo
Polícia, bombeiro, conflito
A sede de justiça é nosso oxigênio

Ineficazes são as balas de borracha
E o velho spray de pimenta
Os jovens que estão em marcha
São os bravos da geração noventa

Que a luta não termine em morte
Que a voz não se cale com o fuzil
O jovem não foge à luta, é forte
É filho da Pátria Amada, Brasil.

(Filipe Medon)

domingo, 9 de junho de 2013

A lembrança da mulher amada


Ainda lateja a lembrança dos dias de esperança
Quando eram reais o sonho e o desejo
Gostosa e doce aventura de criança
A desbravar as fronteiras de um beijo

Conquistador, empunhava sua espada
Erguia seu brado de sonhador irreparável
Duelava contra o medo de sua amada
Vivia um sonho feliz, doce e afável

Perdia-se no oceano castanho da paixão
Navegava nos mares ocultos da voracidade
Suas mãos eram volúpias em erupção
A percorrer os caminhos da sensualidade

Os dias passaram, os sonhos se esvaíram
Feito fumaça que arde na mão calejada
Sua vida e seus dias se reconstruíram
Mas ainda permaneceu a lembrança da mulher amada.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

A essência do romance: homem e mulher, colombina e pierrot


Os corpos unidos em forma de poesia
Tamanha voracidade não cabem na cama
As cobertas se perdem em noite de heresia
Mas não faz mal para quem tanto ama

O desejo se confunde com a marca nos lençóis
Os olhares se perdem, multifacetados
São raios intensos como dois sóis
Espelhos que refletem a alma dos apaixonados

Passada a noite de volúpia e desejo
Amanhecem os dois em histeria profana
Muito mais que despertar com um beijo
A paixão é uma sanidade insana

Café na cama dividido nas bocas frias
Geleias de fruta com doce de brigadeiro
Volve ao peito os pulsares em euforias
A cama se torna novamente um picadeiro

E nesse circo de palhaços despidos
A noite se transfigura feito magia
E dentro da cartola: seios e braços, os dois perdidos
Amam-se em beijos, toques e fantasia!

A locomotiva do mundo: abelha nos sonhos de um elefante


Roda-gigante impassível de mudança
Eixo que se torna foco principal
Sonho que se torna ironia de criança
Anseio humano que se torna animal

Um tornar-se tão irresistível e louco
Que altera, muda, transfigura enfim
Faz do grito áspero e tão rouco
Um brado suave ao som do clarim

Mundo, planeta, sociedade, sistema
Rodamoinho, giro circular errante
Senhor do tempo e do problema
Abelha nos sonhos de um elefante

Na abstração se enclausura, faz morada
O egoísmo do não querer transformação
A massa, o ser, a mente tão conformada
Aceitam a passagem da locomotiva opressora do mundo, sem reação!

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Inquietações poético-filosóficas


Ser ou não ser: eis a questão!
É preciso sair da caverna escura
Enfrentar as palavras de Platão
E chegar ao mundo da loucura

É preciso ter cuidado nessa vida
Em busca de uma vã Filosofia
Olhar com cautela a ferida
E enfrentar as vozes da sabedoria

Mas quem me convidou para o banquete
Onde comem os filósofos do passado?
É como se cantasse em falsete
Numa mesa onde se come calado

Sócrates, Aristóteles, Rousseau
Que me perdoem... São todos "difícils" (e cheios de vícios)
Que os sábios leiam Heidegger e Foucault
Pois apesar de tudo sou poeta: ainda prefiro Vinícius!

Monologando com a existência


Pediram-me: Não vá! Não busque a felicidade!
Era necessário fincar os pés sobre a ignorância
Não vá! Não busque conhecer a verdade!
Era preciso manter meu espírito ainda na infância

A despeito das negativas e ameaças de choque
Saí em busca do conhecimento perdido
Fui afastado sem nem mesmo um toque
Pela vibração do meu destempero corroído

O sagrado se travestia de profano
A razão se mancomunava com o sentimento
Círculos concêntricos de um mesmo auto-engano
A explicação da palavra não servia de alento

Foi quando me prostrei diante da minha cruz
A cruz do medo, do egoísmo e do orgulho vilão
Pecar contra si mesmo é fogo que reluz
Morrer na dúvida é teimosia. Eis a minha reflexão.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Cair do seu mundinho sem aviso prévio é:


Deparar-se com o universo girando
ao entorno de seu próprio eixo,
sem parar aos seus pés, desafiando
a gravidade do seu vago desleixo.

Perceber que o mundo não estaciona
ao desejo de seu tempo precioso.
Nem mesmo adianta pedir carona
para recuperar o tempo ocioso.

O mundo é como roda-gigante
a girar em velocidade incontrolável.
Não para nem por um instante:
Vomita suas imposições – Irreparável!

Dar-se conta da sua própria pequenez
diante das coisas e da sociedade...
Perceber que ninguém espera sua vez...
É um baque. É um choque de realidade!

domingo, 17 de março de 2013

O Beijo da Times Square


O Beijo da Times Square

Os rádios anunciavam a plenos pulmões:
É o fim da Guerra que restava no Oriente!
Miséria, mortes, tristeza, lucro, rendições
E no meio de tudo, um beijo, somente.

O marinheiro não cabia dentro de sua euforia
Explodia de felicidade, cria na paz mundial
A enfermeira não continha sua alegria:
Em pleno Agosto celebravam o Carnaval!

Dois desconhecidos que se conheciam num beijo
Duas vidas entrelaçadas por uma conquista.
Mais que atração fatal ou desejo,
Era amor verdadeiro à primeira vista!

O mundo atômico nascia ao redor dos amantes
Enquanto o infinito para eles bastaria...
Nunca mais se veriam, não se conheciam antes
Mas aquele beijo se tornou imortal na fotografia. 

sábado, 16 de março de 2013

Petrópolis, o mais lindo dos amores!



Petrópolis, o mais lindo dos amores!

De um Córrego Seco nascia
A princesinha da bela Serra
Das mãos de Pedro florescia
A inspiração de nossa terra

Ares amenos para princesas
Terra fértil para os colonos
Congregação de realezas
União dos mais bravos tronos

Portugueses, Italianos e Alemães
Europa refeita em ares serranos
Despertar fecundo das manhãs
Política feita embaixo dos panos

Capital da política e da cultura
Berço de poetas e escritores
Terra límpida, alva e pura
Petrópolis, o mais lindo dos amores!

terça-feira, 12 de março de 2013

A Sucessão Papal: “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternunra jamás.”



Estamos vivendo um período histórico. Na iminência da escolha do novo Papa, seu Pontificado deverá enfrentar não apenas a Igreja Católica e suas inúmeras divisões, como a Cúria, mas também, um mundo a beira do caos.
O novo Papa deverá ter habilidade suficiente para agir mais como um líder político do que religioso, uma vez que poderá ter papel decisivo no enfrentamento de mazelas mundiais e internas.
Um bom exemplo seria João Paulo II. Não é preciso muito conhecimento para chegar à conclusão segura de que seu Pontificado soube ser muito efetivo politicamente. Chegou a ser decisivo, de fato. Em tempos de Guerra Fria, a liderança calorosa do polonês foi firme com doçura e, ao mesmo tempo, humana e segura.
Karol Wojtyla soube reformar a sua Igreja, trazendo modernidade e ao mesmo tempo resguardando os princípios apostólicos tradicionais, sabendo se envolver com precisão cirúrgica nas questões mundiais mais desafiadoras.
A afabilidade de Wojtyla é um tanto quanto rara e é difícil que haja um papa neste século que a supere, a exemplo de Bento XVI. Um papa político, mas pouco terno. Talvez seus últimos dias e momentos em Castel Gandolfo tenham sido seus maiores expoentes de simpatia plena e doçura. O mundo pode observar o homem Ratzinger, que antes de ser um Papa, sofria na clausura de seus mais profundos sentimentos de impotência diante das mazelas que o cercavam.
Substituir um papa tão carismático como seu antecessor talvez fosse uma das maiores dificuldades que um homem já enfrentara na sucessão de Pedro, de acordo com a crença Católica. A figura sisuda e pouco espontânea do endurecido cardeal alemão ressaltava o seu lado político, sem deixar transmitir o homem que se escondia por trás das vestes papais. Quando o Joseph homem apareceu, o Bento político já havia se perdido e nessa missão árdua de liderar a Igreja é mister possuir duas qualidades: afabilidade e pulso firme.
O novo Papa terá inúmeros desafios para lidar, tais como a situação mundial dos regimes fundamentalistas das não-aceitações e as novas, perigosas e incertas ascensões ao poder de líderes como Kim Jong-un.
Entretanto, talvez o lado interno seja o mais preocupante. A Igreja Católica não é mais aquela imponente figura que imperava soberana nos séculos passados. Fieis são perdidos como ovelhas desgarradas pela falta de humanidade de seus líderes. É preciso que um pastor sábio saiba conduzir os rumos de seu rebanho, corrigindo internamente os problemas que o mundo inteiro já conhece, como as questões polêmicas da pedofilia, abusos sexuais, aborto e o próprio sexo.
A nova figura a ser anunciada no Vaticano deverá seguir os moldes não só da milenar Bíblia e da moral do Cristo, mas de um enunciado muito simples de Ernesto Guevara, o Che: “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternunra jamás.” É preciso um líder que resolva os seus problemas dentro de casa com ordem e sorria com ternura para o rebanho de fieis desgarrados do lado de fora.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Recalculando


Minha arte se exila no peito
Num asilo político de sabedoria
Pleno desejo, verso bem feito
Luz branca em noite de agonia

Minhas palavras não são minhas
Erro ao usar o pronome possessivo
Possessividade exijo nas linhas
Que são minha razão, meu motivo

Entregue às duplicidades da alma
O dualismo encontra a unidade
Áspero, rude, doce, sem calma
O poeta transforma a realidade

Sem qualquer fuga ou resistência
Posso até parecer um tanto rude
Minha emoção pode ser ciência
Uso a sagacidade da juventude

Minha arte se exila no peito
Minhas palavras não são minhas
Entregue às duplicidades da alma
Uso a sagacidade da juventude.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Mensagem de Natal de 2012



Mensagem de Natal de 2012

Vejo um Natal mais sereno e mais tranquilo, mais humano e mais verdadeiro. Há tempos que desejava viver uma época natalina como a desses dias. Cheguei a viver dias mais festivos, com mais humanidade no lidar das pessoas, mas neste século as pessoas pareciam estar mais distantes e um tanto quanto cristalizadas em seus egoísmos e indispostas a solidarizar com o próximo.
            Este ano, sinto uma presença maior do espírito natalino na vida das pessoas ao meu redor. Nunca vi tantos desconhecidos se desejando “Feliz Natal” uns aos outros com tanta profundidade do coração. Eles realmente desejam paz, amor, harmonia e prosperidade, apesar de tantos problemas que temos vivido.
            Parece que a possibilidade, mais fantasiosa que crente, do fim do mundo despertou nas pessoas um sentimento do “cair da ficha”. Está caindo a ficha de que não há mais como viver num mundo sem fraternidade e maculado pelas chagas do egoísmo. Nós temos que nos libertar das algemas e dos grilhões do medo, amando virtuosamente acima de tudo.
            Mas ainda há muitas fichas que precisam cair no coração daquelas pessoas endurecidas e sepultadas no egoísmo insincero do amor próprio excessivo. É preciso celebrar nos corações a verdadeira razão do Natal, que não se resume a uma nova televisão ou a um tablet comprados em 24 vezes sem juros no cartão. A verdadeira razão do Natal está na celebração da vida do Cristo.
            Apesar das divergências da historiografia a respeito do verdadeiro dia do nascimento de Jesus, seria um erro muito grande nos atermos ao seu nascimento físico, pois essa data deve celebrar acima de tudo, o seu nascimento dentro de cada coração. Embora muitos não acreditem em Jesus e não celebrem o Natal da mesma forma que a maioria, não há como negar que o mundo se enche de paz e harmonia nesses dias.
            É tempo de se perdoar, de buscar o convívio de diálogo, de aceitar o outro sem preconceitos e de amar sem limites. Que possamos celebrar o nascimento do Cristo em nossos corações, realizando uma ceia de benfeitorias e trocando o maior presente que Ele nos poderia ter deixado: o Amor.
            Que todos possam ter um Natal de luz, de verdadeiro amor e plenitude, abençoados pela chama da gratidão pelos novos dias de Regeneração que vêm caindo sobre o nosso planeta. Paz e bem!

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Filipe Medon declama: Oração de Natal de Rabi, Rei dos Reis


Allan Filho canta sua música autoral Divino Irmão (Rabi) e Filipe Medon declama seu poema Oração de Natal de Rabi, Rei dos Reis, acompanhados por Thiago Camanho (piano) e Átila Rondon

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Oração de Natal de Rabi, Rei dos Reis



Oração de Natal de Rabi, Rei dos Reis

Não havia ao menos um lugar na estalagem
Para o nascimento do Governador da Terra
De Deus a mais perfeita semelhança e imagem
Nascia o próprio amor vencendo a guerra

Numa manjedoura, despido de qualquer riqueza
Recebíamos sua primeira lição de humildade
Não é preciso luxo nem mesmo dons de realeza
Para ser rico no império do amor e da caridade

O mundo todo parava a fitar a estrela guia
Pairava sobre a Terra uma vibração especial
O mestre, irmão e amigo Jesus nascia
E desde então celebramos a sua vida em cada Natal

Quiséramos nós ter o ouro reluzente da pureza 
A mirra e o incenso oloroso da bem-aventurança 
Quiséramos nós suportar a missão da pobreza
Com um sorriso sincero e simples de uma criança

O Natal não se resume a uma ceia e a presentes
Nem mesmo a roupas elegantes e comemoração
É tempo de consolar os pobres e impotentes
Levando a vida fraterna do Cristo a cada coração

Natal é vida e o dom mais perfeito do amor
É a celebração das virtudes do Rabi, Rei dos Reis
Que despido de toda vaidade se torna o ator
Da mais bela história que o criador já fez

Que possamos viver o Natal todos os dias
Através de nossas atitudes, com toda luz
Que possamos hoje compartilhar nossas alegrias
Em nome do nosso mestre e irmão, Jesus. 


terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Se o mundo tivesse prazo de validade



Se o mundo tivesse prazo de validade

Se o mundo tivesse prazo de validade
E eu soubesse qual seria o último dia
Despiria meu corpo de toda vaidade
Faria uma lista de desejos e aproveitaria

Tentaria conhecer um lugar perfeito
E torraria meu dinheiro até o último cifrão 
Seria um aventureiro só com o direito
De respeitar as leis do meu coração

Navegaria por mares, desafiando os medos
Ajudaria sem receio e com toda paciência
Fugiria de quem soubesse meus segredos
Viveria sem qualquer pesar na consciência

Deixaria para o momento derradeiro
O desejo que me daria mais prazer
Nos braços de minha amada não seria o primeiro
Mas seria o último homem que ela pudesse ter.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

No fim da balada a menina chora


No fim da balada a menina chora

Que se apaguem as luzes da balada!
Agora ninguém é de ninguém!
Todo mundo bebe a sua vodka gelada
Até o feio termina com alguém

Pega uma, pega duas, pega dez
Beija, agarra, toca, desaparece
Todo mundo louco da cabeça aos pés
No outro dia você já se esquece

Mulheres-objeto, homens-vadios
Homens-infiéis, mulheres-piranha
Quando os copos estão vazios
Até mesmo o pegador se acanha

E no tuntz-tuntz da balada da pegação
Se apresenta a falta de amor verdadeiro
Quem usa seu corpo vulgar como diversão
Acaba sem amor, chorando num banheiro.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Telemarketing



Telemarketing

Estaremos transferindo a sua ligação
Pedimos um pouco de paciência ao senhor
Um momento, aguarde a desocupação
Do nosso atendente, por favor

Triiiiiim... Bliiiiiim... Bleeeem... Blom!
A sua ligação poderá ser gravada
Triiiiiim... Bliiiiiim... Bleeeem... Blom!
Selecione a opção desejada

Senhor, não entendi. O senhor pode repetir?
O senhor deseja aumentar o seu pagamento?
Acho que a ligação estará caindo, vai cair....
Confirmando: seu plano sofreu um incremento

O senhor não estará mais querendo o nosso plano?
O senhor estará querendo sair da nossa companhia?
O senhor não quer mais mensagens nem interurbano?
Aguarde uma eternidade para cancelar sua linha!


Shakesperare choraria



Shakesperare choraria

Shakesperare com absoluta certeza choraria
Se visse como está o amor no mundo atual
O amor, único e verdadeiro que existia
Parece estar enrustido numa realidade paradoxal

Pobre Romeu... Como conquistaria sua Julieta?
Não namoraria... Estaria num relacionamento sério 
Clicaria num botão mais rápido que um cometa
Para atualizar o status antes de desvendar seu mistério (em seu claustro monastério)

Galanteios, romance, olhares, cortesia, sedução
Já são coisas de um passado bem distante
Hoje a conquista é através de uma tal ficação
E não mais por uma declaração de amor apaixonante

Hoje não se namora, fica-se com as minas
E tome traição por não curtir mais
As donzelas que um dia foram tão finas
Oferecem-se vulgarmente como nunca atrás

Pobre Julieta... Custaria a encontrar seu Romeu...
Morrer de amor? Tão careta como fazer versos
Hoje o amor que um dia o poeta concebeu
É brega e cafona como farrapos diversos

Parece coisa boba, mas ainda existem românticos
O amor é o mesmo, só muda como é demonstrado
Ainda existem versos como no Cântico dos Cânticos
Mas raros Romeus como este pobre apaixonado.

sábado, 10 de novembro de 2012

O engenheiro das palavras


O engenheiro das palavras
Arquiteta com exatidão 
O que o pedreiro, em suas lavras,
Arremata com cimento e emoção. 

O lápis que planeja a estrutura
Numa caligrafia concisa e macia
É feito a paleta da pintura, 
Que mistura versos em harmonia.

A boa obra se auto-arquiteta,
Despreza o luxo da intervenção. 
Depois da lida está completa!

Seja na poesia ou na construção, 
O engenheiro é o poeta;
O pedreiro é o coração.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

A vida passa


A vida passa 
E só permanecem
As coisas sem graça
Que não se esquecem:

O amor cultivado
A paz plantada
O carinho dado
A obra edificada.

Tudo vira pó
Mas não é pessimismo
Apenas um pouco de dó
Misturado com conformismo

Tanta gente que passa
Tanta gente que fica
A vida é massa
Mas tem gente que é titica

Mas no final das contas
O que se tem no final
É um bando de contas
E um amor pré-datado em cheque especial.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Lua azul

Somente uma lua azul para iluminar
Um dia profundo e cansado da lida
Ah, as estrelas circundam o luar
Numa noite tão serena e exaurida

Só mesmo a inspiração duradoura
Para resgatar a semente fecunda
Que consola a tez branca e loura
Da pobre e triste vagabunda

Lua de ricos, pobres e indigentes
De astronautas, físicos e leigos
Tantas imagens de tantas lentes
Tantos poemas simples e meigos

Lua azul, reflete a cor dos oceanos
Transfigura o manto dos anjos em véu
Lua azul, uma esfera envolta nos panos
Aquarelas de jasmim reluzentes no céu.


Dorme, velho!


Recostado em sua poltrona de conforto
O velho fez das almofadas sua retaguarda
E no cochilo, com o pensamento torto
O ranzinzo acabou abaixando a guarda

Deixou cair seu livro de romance fajuto
Rasgou seu jornal de notícias antigas
Apagou a última centelha do charuto 
Amargou suas lembranças inimigas 

Quicou a cabeça num cochilo suave
Dedilhou seu violão nesses intervalos
Ergueu com sonolência sua clave 
Seus sonhos estavam ainda mais ralos

Beliscou o último salgadinho do pacote
Enrolou seus bigodes, resquício de imponência
Mas tudo acabou num boicote:
Seus olhos sucumbiram à sonolência...